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As vantagens de perder

Perder em competições esportivas tem vantagens e eu descobri isso cedo. Na verdade eu descobri como perder antes de aprender a vencer, porque eu comecei a participar de campeonatos aos 11 anos, e era fisicamente impossível eu vencer qualquer coisa que exigisse mais força e resistência.

Eu tento lembrar hoje como foi que aceitei participar de competições e não consigo, mas lembro que meus pais nunca me colocaram para competir esperando nada de mim, eles só queriam que eu fosse lá ver se era legal, e sendo eu bastante tranquila nessa idade, devo ter aceitado pra ver como era mesmo. Então perder veio naturalmente, e na verdade foi bem fácil porque não tenho uma natureza competitiva. Meus pais sempre ficavam felizes comigo independente do resultado, e se eu fazia alguma besteira eles riam comigo depois. Em algum momento devo ter ficado triste por causa de algum erro, mas eu não lembro, não marcou a memória.
Meu primeiro campeonato de vias foi guiado, e eu aprendi a costurar no isolamento.
Sim, as coisas aconteciam assim antes dos anos 2000, e apesar de ser uma situação meio absurda e meus pais ficarem meio preocupados, eles confiaram que eu conseguiria (alerta de loucura!). Existe até um vídeo meu nesse evento guiando uma via de cabelo tigelinha, blusa de estampa de cachorrinho, e a corda parecendo pesada demais pra uma criança puxar. Hoje em dia vejo que foi bom ter esse voto de confiança dos meus pais logo no início.
Conforme iniciei treinos mais sérios aos 13 anos (com o Rômulo Bertuzzi, hoje professor da USP), passei a analisar mais os erros que eu cometia para tentar consertá-los nos próximos campeonatos, e essa transição na forma de encarar competições foi acontecendo aos poucos.
Quando fui para meu primeiro campeonato fora do Brasil aos 14 anos (Campeonato Centro Sulamericano, Venezuela), nem meus pais nem meu treinador me cobraram algum tipo de resultado. Acabei ficando em segundo lugar na minha categoria Juvenil e em 4o lugar na categoria geral, e foi aí que percebi que minha capacidade era maior do que eu imaginava, principalmente porque as competidoras venezuelanas não eram exatamente amistosas e eu tive que lidar com uma pressão psicológica totalmente desconhecida para mim.
 
A partir disso fui desenvolvendo uma competitividade que me fez ganhar mais confiança, autoestima, concentração e vontade de vencer, além de ter aprendido a ter a honestidade de não culpar os outros pelos meus erros, quando perco em campeonatos e fora deles.
Talvez por isso eu não tenha passado mal fazendo provas de vestibular, e por isso também converso com as pessoas sem querer morrer de timidez.
De um modo geral, o esporte me ajudou muito no meu desenvolvimento físico e psicológico, mas o mais importante na verdade foram as pessoas que me cercaram e como elas me guiaram através deste processo tão esquisito que é crescer.

Agora com o avanço da escalada esportiva no terreno olímpico, vejo muitos escaladores jovens mais animados, muitos pais e mães também empolgados com seus pequenos esportistas, ou seja, o cenário é totalmente inverso ao que eu me deparei com 11 anos, quando meus pais deixaram eu escalar porque eles eram uma exceção, já que escalada era para doidos.
Hoje as crianças tem mais estímulos para começar a escalar, tem uma estrutura melhor para praticar o esporte e tem até competições e categorias exclusivas para elas. Claro que aqui no Brasil isso ainda não é estruturado como em países onde o esporte é mais desenvolvido, mas aos poucos temos melhorado bastante. Este é o primeiro ano em que teremos as duas modalidades (Boulder e Dificuldade) feitas em etapas exclusivas para crianças e adolescentes (infos: abee.net.br).



Por isso tenho pensado bastante em como comecei, como tive sorte, como a escalada me ajudou na minha vida em geral e como as coisas hoje em dia estão mudando.

Portanto peço aos pais que não pesem na cobrança dos filhos, escalada é um esporte que tem muito a ensinar dentro das competições, mas fora delas também tem mais um monte de lições importantes a ensinar, como ser responsável e praticar o esporte com segurança, preservar a natureza com a qual temos contato quando escalamos na rocha, respeitar e entender os próprios limites e o dos colegas, se concentrar quando o medo bate, entre outras coisas.
Se seu/sua filho/a não for bem numa competição, não se mostre decepcionado, só de entrar num campeonato ele/a já está vencendo o obstáculo da exposição, está lá dando a cara para bater. Se acontecer o oposto, também não trate a criança como a próxima Ashima Shiraishi, porque isso também cria uma expectativa com a qual é difícil lidar. Ou seja, vencer é bom, mas não é tudo, e perder é ruim, mas não é só isso que importa também.

Perder me ensinou a encarar minhas fraquezas e a melhorar, a me conhecer e saber quando tenho de me cobrar mais ou menos. Também me ensinou a ser menos autocentrada, e ao mesmo tempo não perder a confiança.

Esse é um processo contínuo em que estou tentando me aprimorar sempre, às vezes com menos sucesso, às vezes com mais sucesso. Às vezes fico frustradas, às vezes eu precisava ter me importado mais. O importante é tentar desenrolar todas essas emoções e descobrir porque elas estão aí.

 

 

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